Codi nasceu definido. Pernas fortes, bom de bola, astuto, matreiro, menino com cara, jeito, corpo de homem.
Canó também nasceu definido. Pernas roliças, gostava de bola, via cores onde ninguém via, pássaro no corpo de menino.
Codi viveu sua vida. Canó também viveu a sua.
Codi já tinha visto Canó algumas vezes. Canó também havia visto Codi. Mas essas poucas vezes, o máximo que aconteceu foi um repudiar o outro.
Num esbarro da vida Codi conhece Canó. Num esbarro da vida já estavam rindo. Num esbarro da vida ambos se conheciam de outros tempos. Daqueles tempos em que não sabemos contar. Só sentir que existiu.
Canó desde o primeiro instante viu o pássaro no corpo menino de Codi. Mas para Codi seu corpo nem existia.
Canó via que Codi não se via. Canó sentia, mas muitas vezes não conseguia mostrar a Codi o que ele via. Canó sentia que cada vez mais deveria confiar em Codi.
Codi e Canó vão se permitindo atritar e a cada atrito um amor inimaginável preenche os dois.
Num outro esbarro de vida Codi tem que se afastar de Canó. Canó entende, mas não deixa Codi a margem.
Codi e Canó crescem e o mundo chama os dois. Ao mesmo tempo, as mesmas oportunidades, as mesmas escolhas. Canó com unhas e dentes, agarra as curvas da vida e desbrava-se a procura do desconhecido.
Codi se fecha, titubeia, também percorre caminhos que só mais tarde percebe o que eles significam. Caminhos muitos não escolhidos, mas aproveitados.
Codi e Canó durante todo o tempo sempre se comunicavam, pois um não esquecia do outro. Canó fazia sua parte e mesmo a distância fazia Codi esquecer a realidade e viajar num caminho de cor. Quando se encontravam Codi sentia que Canó alimentava sua alma, pois a alma de Canó sempre fora vadia.
Muito tempo passara. Idas e vindas, encontros e desencontros. Canó seguia sua vida, mas sempre pensando em como estava Codi.
Codi tentava se encontrar, mas se perdia em meio aos seus pensamentos que não ganhavam movimento. Codi esbarra na vida. Codi se apaga. Codi começa a passar pela vida.
Canó sente que é hora de voltar e num esbarro de vida reencontra Codi. Aquilo que é sagrado nunca se rompe, pois aquilo que é puro, sacraliza-se.
Canó faz Codi passar sua vida em segundos.
Canó não permite a Codi se acomodar.
Canó vê então que agora está preparado para fazer aquilo que sempre tentou, mas não conseguiu. Canó apenas continua a acreditar em Codi e este resolve embarcar nas asas de Canó.
Codi renasce, revive, reinventa, refaz. Tudo porque Canó acredita em suas palavras, em seus sonhos, em sua alma. Codi passa também a ouvir sua própria alma.
Canó também renasce, revive, reinventa, refaz. Canó ama Codi. Mas Codi ama Canó muito mais.
Codi e Canó se reencontram, se redescobrem, se redefinem. Se permitem ser. Várias emoções transitam pelos dois, vários lugares, várias pessoas, vários encontros, descobertas, surpresas, estranhamentos. Eles aproveitam tudo até que o mundo dos homens pressiona Codi e ele começa então a tentar dialogar com os dois mundos a que pertencia.
Era tão fácil ter um mundo só!
Canó não entende o jeito de Codi. Mas é paciente e percebe que tudo é processo.
Mas as escolhas não terminam. Escolhas são adiadas, mas nunca interrompidas.
Num esbarro de vida Canó estende suas mãos. Num mesmo esbarro Codi deixa suas mãos caírem.
Canó segue sozinho sua história sabendo que Codi sempre fará parte da sua.
Codi esbarra em sua própria história, pois não consegue escrever sua história do jeito que deveria.
Canó segue e de longe tenta escrever algo para si e para o outro.
Codi a tudo assiste, mas novamente esbarra na vida: ele não aprendeu a ler.
EMERSON DE PAULA
DEZEMBRO 2007
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
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2 comentários:
Emerson,
Texto mais lindo. Me emocionou. Sempre, sempre você, com essa escrita deliciosa...vou te acompanhando...
já está gravado aqui o seu blog entre os meus preferidos!
beijo, beijo
saudades, querido!
Maaaaaaaaaara esse texto.
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