segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Antes que seja tarde

- Sufocado?
- É.
- Eu é que me sinto sufocada! Quanto mais eu quero saber menos você quer falar. Isso me faz mal!
- Eu me sinto mal.
- Você me ignora...
- Você não dá tempo da gente te buscar.
- Mas eu te quero, quero poder...
- Poder viver nossa vida.
- (...).
- Você não dá tempo pra sentirmos saudade. Você não dá tempo de te darmos carinho ou de querermos.
- Você é contra mim.
- Sou contra o que você quer que eu seja.
- Mas você não era assim...
- Sempre fui. Você é que não percebia.
- Sua ausência me causou sufoco, sufoco virou angústia, angústia...vazio...
- Não sou o único.
- Mas é diferente!
- Não sou o melhor.
- Mas é próximo!
- Não sou seu.
- Mas é...
- Não sou.
- É.
- Sou aquilo que desejo.
- Te desejei sempre o melhor!
- O seu melhor.
- O que é melhor pra todos!
- Todos? Sou eu.
- E eu sou você.
- Você não tem que ser eu. Tem apenas que aprender comigo.
- Você não me ensina!?
- Você não se permite aprender.
- Não é preciso mudar...
- É preciso você, se adequar.
- Assim é como quero.
- Não sou o que devo ser. Sou o que quero ser.
- E o que você quer ser?
- Você.
- Eu?
- Sim. Mas ao contrário.
- Ao contrário?
- Quero nascer quando você termina e terminar como você nasceu.
Sai fechando a porta.
Muda, a mãe chora como sempre chorou.
Mas hoje havia um motivo. Não queria entender a mensagem. Queria ser ela a mensagem.
Levanta.
Apalpando as paredes ela chega ao quarto. Procura a cama, retira o lençol e deita.
Só, ela ri por dentro porque no rosto lágrimas não mais havia.
Por uma fração de segundos a mãe vê aquele que sempre amou.
Por uma fração de segundos a mãe vê a escuridão.
Horas mais tarde o filho volta.
Fechando a porta ele sente o que sentiu há dez anos atrás. Vai ao quarto e vê que a mãe agora era menina.
O filho embala a criança e em seus cabelos lhe deposita uma flor.
Flor que só ele vê!
Flor que sempre quis ofertar, mas não houve momento. Ou não buscou esse momento.
Beijando-lhe a face, o filho deixa o quarto. Deixa a casa.
Na noite ele ri. Como se fosse a última risada...
Por dentro um choro contínuo sufocava-lhe o peito e rasgava-lhe a alma.
Tardiamente, a mãe, habitava-lhe.

FIM
EMERSON DE PAULA
Janeiro 2006

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