O suor escorria pelo negro corpo.
Chamavam-no de Nbenda, mas ele não se via assim.
Não suportava sua condição de escravo por descendência. Ainda estava naquela fazenda só porque chegaram às férias escolares. Era nesse momento que ele esquecia todo o sofrimento porque noutros momentos ele trabalhava cada vez mais para poder suportar a ausência daquela pessoa.
Aquela pessoa também esperava as férias para encontrar a sua pessoa.
O neto chega à fazenda. Corpo roliço, botas, cheiro de vida. 18 anos completara.
O menino começava a virar homem. Era diferente de todos em sua família. Compreensivo, aberto ao diálogo, sorridente, visceral, único. Todos adoravam o jovem e Nbenda mais ainda.
Era ele pisar na terra da fazenda que esquecia o mundo lá fora, não ouvia mais nada. Só sentia o cheiro de suor daquele corpo negro... Corpo que possuía a mesma idade do seu. Corpo que cresceu junto, brincou junto, descobriu junto mas não teve as mesas oportunidades.
O neto chega à fazenda. Nbenda capinando o jardim. Ambos se vêem. Abraçam-se. Relembram o passado.
O avô quer acabar com o encontro. Julga já ter dado tempo suficiente. É interrompido pela esposa que explica o valor das coisas cultivadas desde a infância... Nbenda-mãe contempla a cena.
Noite cai. Todos dormem. Menos o neto.
Em seu quarto ele olha a lua.
- Ô a êêê ôiá! Ele canta só pra si.
- Ô a êêê ôiá! Nbenda canta pra ele.
O neto deixa o quarto. Deixa a casa.
Do encontro no jardim, saem calados em direção às árvores. A beira da lagoa eles contemplam a lua.
- Você cresceu!
- Você também!
- Demorou a vir este ano.
- Quase não vinha. O colégio apertou.
- Tava esperando.
- Também.
A beira da lagoa, Nbenda tira sua camisa, arregaça a calça e entra na água como se fosse uma oferenda a Oxum.
O neto observa aquela cena. Seus olhos marejados. Sua vivacidade anulada.
Nbenda sai da água e deita na pedra que está ao lado do garoto.
A água que escorre ao peito faz lembrar o suor que escorre neste mesmo peito nos dias de trabalho ao sol.
- Sinto falta de você!
- Você vive em mim!
- Mas você fica na cidade e sua amizade é que me alimenta o peito...
O neto com lágrimas aos olhos deposita a mão mulata no peito de ébano. Com os dedos, enxuga a água que insistia em escorrer.
Nbenda surpreende-se com a atitude do amigo, mas sente que deve deixar acontecer.
Do peito a mão sobe ao pescoço e encontra a boca. Com a outra mão o neto faz o mesmo em seu corpo.
Nbenda quer falar, mas o neto tampa-lhe a boca e cobre-lhe os olhos. Tudo feito na mais perfeita doçura.
Tirando a roupa o neto entra na lagoa. Era como estar nadando no suor de Nbenda. Embriagado, ele bate a cabeça repetidas vezes nas pedras que circundam a lagoa até o sangue cobrir seu rosto. Imóvel, ele bóia e chega à margem.
Assustado o negro chora entrelaçando-se com o corpo do neto do senhor. Lambe-lhe o sangue da cabeça e beija-lhe a boca. O suor dos lábios de Nbenda se junta ao sangue e a saliva do garoto. Nbenda sente o corpo que nunca sentiu.
Não havia mais tempo. Era preciso entender a mensagem.
O negro nu entra na lagoa. Vai até a pedra e repete a mesma ação do companheiro. Seu corpo tomba, bóia sobre a água e encontra o corpo que sempre desejou. Finalmente os corpos haviam se amado.
Do lado oposto à lagoa, entre as folhagens, Nbenda-mãe e a avó do garoto abrem mudas uma cova. Cavam e deixam as lágrimas umidecerem a terra.
Cúmplices elas sepultam os corpos. Deitadas sobre a mãe terra grávida dos dois garotos, elas velam a tristeza de não terem feito nada. Pelo menos quando ambos viviam.
Mas no peito agora não havia pranto de dor. O que havia era celebração.
EMERSON DE PAULA
28/02/2006.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
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